Maomé, de Profeta a Guerreiro
Peter Cotterell é ex diretor da London School of Theology e membro da Sociedade Real de Artes. Especialista em estudos islâmicos, é também autor de dezenove livros, incluindo Islam in Context (O Islamismo em Contexto), com Peter Riddell, e One God (Um Deus).
Como ocorreu a transformação de Maomé de profeta a guerreiro?
De acordo com as mais antigas biografias de Maomé disponíveis (por ibn Ishaq), este esteve pessoalmente envolvido em 27 incursões de combate e “na realidade lutou” em quatro dessas.1
A história dos dias da formação do islamismo é melhor caracterizada como uma trajetória de violência, apresentando três fases: o período inicial, quando os seguidores de Maomé aceitavam passivamente a perseguição; um período defensivo, quando a violência era permitida em resposta à violência; e o período ofensivo, quando a violência era permitida geralmente “pela causa de Alá.”
Fase Um: A Aceitação Passiva da Perseguição. Maomé começou sua proclamação do Deus único, Alá, quando tinha 40 anos, e enfatizou a afirmação de um Deus Único, o absurdo do politeísmo árabe, e a necessidade de acabar com a exploração e a negligência em relação aos pobres. Ao mesmo tempo, exortava sobre o julgamento de Alá contra todos os que rejeitassem quer a mensagem, quer o mensageiro. Como era de se esperar, seu ensinamento provocou oposição: dos ricos e poderosos - que eram os exploradores dos pobres - e daqueles que lucravam com a idolatria politeísta (remanescente da experiência de Paulo em Éfeso, Atos 19.23-27).
Fase Dois: Luta Defensiva. Em 622, Maomé e seus seguidores abandonaram Meca e se mudaram para Medina, cuja população havia lhe prometido a proteção de seus inimigos e a recepção de sua mensagem. Os cidadãos de Meca, no entanto, rejeitaram sua mensagem e recusaram a seus seguidores o acesso a Caaba, seu lugar de oração que incluía em suas paredes a chamada pedra negra, a qual Maomé parece ter afirmado que foi dada a Adão como fundamento para a primeira “mesquita”. Mas um novo período da vida do profeta havia começado: agora tinha suficientes cidadãos de Medina para apoiar a oposição e até mesmo ameaçar os de Meca.
Primeiramente, organizou um ataque a uma caravana comercial de Meca em Nakhla. Provocou controvérsia quando os atacou durante um dos meses sagrados, quando, de acordo com o costume árabe, as caravanas eram imunes a ataques. Mais tarde, reivindicou uma revelação de Deus para justificar o evento e o princípio mais geral de resistir aos idólatras de Meca. O Alcorão capítulo 2 verso 217 representa Alá falando a Maomé sobre como deveria explicar esse evento a seus seguidores: “Quando te perguntarem se é lícito combater no mês sagrado, dize-lhes: A luta durante este mês é um grave pecado; porém, desviar os fiéis da senda de Deus, negá-Lo, privar os demais da Mesquita Sagrada e expulsar dela (Makka) os seus habitantes é mais grave ainda, aos olhos de Deus.” 2 É neste ponto da história que o islamismo é introduzido à ideia da jihad, a luta pela causa do islã.3
Fase Três: Jihad Ofensiva para o Avanço do Islã. Com o fracasso de Meca em sua tentativa de capturar Medica em 627 e a ocupação de Meca por Maomé em 630 d.C., a segunda fase terminou e começou a terceira: a oposição de Meca havia terminado, e Maomé voltou sua atenção para subjugar as tribos árabes e incorporá-las em uma única nação muçulmana. Mas também encontrou e subjugou um grupo de judeus em Khaybar, e pessoalmente liderou um ataque a um grupo cristão em Tabuk no Golfo de Ácaba. Foram obrigados a se submeter e se tornaram dhimmi, uma minoria não muçulmana no Estado Muçulmano.
A biografia combativa de Maomé assim define o antigo caráter do islã e lança precedentes de como os muçulmanos pensariam sobre o conflito nos anos que viriam.
Qual é o significado da transformação para a compreensão e desenvolvimento do Islamismo?
A trajetória de violência acima descrita historicamente fornece justificativa para a violência que tem caracterizado a confrontação entre os sucessivos impérios/califados muçulmanos e o resto do mundo. O avanço inicial do islã em direção ao ocidente através do norte da África, até a Espanha e o sul da França e em direção ao norte para a Síria e aos portões de Constantinopla, de forma nenhuma poderia ser descrita como jihad defensiva. Atualmente, a trajetória também provê aos muçulmanos extremistas justificativas para suas ações violentas. Outros muçulmanos têm tentado reinterpretar esses eventos antigos na história muçulmana como sancionando uma guerra defensiva, mas não ofensiva. No entanto, como indicou o professor Bernard Lewis: “Por grande parte dos catorze séculos de registro histórico muçulmano, a jihad foi mais comumente interpretada como uma luta armada para a defesa ou avanço do poder muçulmano.”4
Jihad. A palavra árabe “jihad” quer dizer “luta” e tem sido encarada de duas formas, como a jihad mais elevada, a luta contra o eu, a luta para ser um muçulmano melhor, e a baixa jihad, a luta armada contra o mundo não muçulmano. Muçulmanos Ahmadi, que são tidos como hereges e não muçulmanos pelo resto do islã, rejeitaram inteiramente a baixa jihad e defendem que Mirza Ghulam Ahmad (c. 1839-1908) era o profeta prometido para o Fim dos Tempos, que “quebrou a espada” de acordo com a Tradição muçulmana e encerrou a baixa jihad.
Dentro do islã, há uma segunda corrente, os Sufi, que se especializam na jihad mais elevada sem, na realidade, rejeitar a baixa jihad. Os Sufis talvez possam ser melhor descritos com muçulmanos carismáticos, cujo objetivo é a experiência pessoal imediata de Alá, obviamente um foco para o indivíduo na jihad mais elevada. No entanto, por todo o norte da África e na Nigéria, o sufismo tem promovido ambas as formas de jihad.
Alguns observadores do islamismo moderno dizem que a religião definida corretamente quer dizer “paz”. Mas etimologica e historicamente tal afirmação não é verdade. Patrícia Crone do Instituto para Estudos Avançados em Princeton conclui: “O Deus de Maomé endossa a política de conquista, instruindo seus crentes a lutar contra os infiéis, onde quer que possam ser encontrados. (...) Resumindo, Maomé teve que conquistar (...) e sua divindade ordenou-lhe que conquistasse.”5 Esse legado continua dentro do islã atual.
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Ibn Ishaq, The Life of Muhammad, trans. A. Guillaume (Lahore: Oxford University Press), 659-660. Originalmente publicado como Sirat Rasul Allah, c. 750 A.D. Tradução livre.
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Todas as citações do Alcorão neste artigo foram extraídas da versão em português extraída do website http://www.islam.com.br/quoran/traducao/index.htm. (Nota do Tradutor).
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Veja a Parte I desta série, "A Leitura Literal do Alcorão Gera o Terrorismo?"
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Bernard Lewis, The Crisis of Islam: Holy War and Unholy Terror (New York: The Modern Library, 2003), 31. Tradução livre.
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Patricia Crone, Meccan Trade and the Rise of Islam (Princeton: Princeton University Press, 1987), 244; também disponível em: http://www.fordham.edu/halsall/med/crone.html (acessado em 16 de dezembro de 2005). Tradução livre.
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